Terça-feira, Junho 03, 2008

A evolução do teatro

Crítica: "-Nu de mim mesmo"

Por Eduardo Lapagesse (eduardo.lapagesse@gmail.com)

A Cia Teatro Autônomo, marcada pela inovação e o frescor na cena teatral, inaugura seu mais recente trabalho, “-Nu de mim mesmo”, produto de dezenove anos de pesquisa e experimentações. Apostando na inclusão do espectador e de novos elementos, a peça trata da trajetória humana e seus muitos descaminhos.

O fio condutor do espetáculo é a busca do físico Arthur (Adriano Garib) por um melhor diálogo com seu filho (Fabio Dultra), cuja namorada (Julia Lund) indiretamente apóia esta reaproximação. Arthur é ocasionalmente visitado por uma mulher (Miwa Yanagizawa) e por um amigo (Otto Jr), com o qual divide o fascínio pela observação anônima de desconhecidos, misto de flânerie e dandismo.

Perpassando os desdobramentos do protagonista, são apresentadas outras narrativas, igualmente fragmentadas, que se completam e se complementam ao longo de décadas de histórias. Os pontos de encontro residem, entre tantos outros, na busca pela heroicidade perdida na infância, a incomunicabilidade – seja entre pai e filho, ou com um ente falecido -, o propósito de uma vida e sua respectiva memória.

Como explicitado na minha crítica da montagem anterior da companhia (disponível em http://paginas.terra.com.br/noticias/fachada/reportagens/maisartes/index.htm), a sequência de experimentações, vista em espetáculos passados como “Deve haver algum sentido em mim que basta” e “Uma coisa que não tem nome (e que se perdeu)” indicava uma evolução rumo ao que se tem agora: uma síntese cada vez maior com o público, como se personagens e espectadores (re)descobrissem e experimentassem juntos o que é proposto.

Personagens e espectadores até mesmo dialogam, num exercício arriscado, que encerra por enriquecer e aproximar a narrativa, além de coroar ainda mais a competência dos atores. Mais um ponto para o duo Jefferson Miranda (direção e roteiro) e Flavio Graff (dramaturgia), que também dividem a direção de arte e os figurinos, estes sempre pertinentes e alusivos.

O tom de reconstrução é notório até mesmo no cenário, que é montado paulatinamente, como a desvelar e sugerir significações, ressignificações. Sem estragar potenciais surpresas, a sinestesia, marca de produções recentes, é um pouco preterida em prol de novos elementos, como a dança e o canto, conferindo um tom menos sinestésico e mais multimídia. Estes se encaixam com perfeição, conferindo suavidade e renovação, passando longe de um musical, o que, para este tipo de peça, é um êxito. Desta forma, as pouco mais de três horas jamais cansam, o conteúdo não se dilui e, ao contrário, é melhor degustado.

A iluminação, a cargo de Renato Machado, é competente em não sobrepujar e, em vez disso, valorizar a riqueza de detalhes do cenário e das expressões faciais dos atores. A música de Felipe Storino oscila entre o drama e a comicidade sem nunca destoar do que é proposto no momento, o que é digno de nota. Por fim, os vídeos, assinados por Fernanda Ramos e Phillipe Canedo, compõem o cenário tanto quanto comunicam, flertando ricamente com a sétima arte.

Clichês à parte, o roteiro é um verdadeiro presente, pois, para um ator que tenha o que mostrar, é quase um portfólio, tamanha é a requisição de suas habilidades cênicas. Como era de se esperar, os destaques ficam com Miwa Yanagizawa e Adriano Garib, mestres no improviso e na composição dos personagens. Otto Jr, desta vez mais coadjuvante, nem por isso é menos brilhante e generoso em suas interações.

Julia Lund, ao contrário de sua última incursão na companhia, em “E agora nada mais é uma coisa só”, tem a oportunidade de mostrar sua versatilidade e dá mostras claras de evolução. Fechando o elenco, o estreante na companhia Fabio Dultra, menos beneficiado pelo roteiro, não compromete e levanta interesse em atuações futuras, ao conferir uma comicidade tácita aos seus personagens.

“-Nu de mim mesmo” representa o ápice das experimentações da companhia: faz pensar, sentir, interagir, provoca e encerra arrebatadoramente otimista. É um projeto audacioso, sem precedentes e obrigatório, um marco não só para a Cia. Teatro Autônomo, como para o teatro. Ao assumir maiores riscos, a companhia multiplica seus êxitos, com resultados igualmente maiores.

“-Nu de mim mesmo”. Direção e roteiro de Jefferson Miranda. Com Adriano Garib, Fabio Dultra, Julia Lund, Miwa Yanagizawa e Otto Jr. Teatro Municipal do Jockey (R. Mario Ribeiro, 410. Tel: 2540-9853). Qui. e sex., às 20:30 h, sáb. e dom., 21 h. Ingressos: R$ 10. Até 21/06. www.ciateatroautonomo.com.br

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1 Comments:

  • Aqui em madalena é um lugar otimo, apesar de tudo o frio
    almenta á cada dia .
    Hoje cedo as plantas estavam com-
    jeladas .E continuou asim o dia todo.

    By Blogger edna, at 7:34 PM  

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