Sábado, Novembro 11, 2006

Emir Sader, a volta da censura e a Justiça definhada

A sentença do juiz Rodrigo César Muller Valente, da 11ª Vara Criminal de São Paulo, que condena o professor Emir Sader por injúria no processo movido pelo senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), é um despropósito: transforma o agressor em vítima e o defensor dos agredidos em réu.

O senador moveu processo judicial por injúria, calúnia e difamação em virtude de artigo publicado no site Carta Maior, no qual Emir Sader reagiu às declarações em que Bornhausen se referiu ao PT como uma "raça que deve ficar extinta por 30 anos". Na sua sentença, o juiz condena o sociólogo "à pena de um ano de detenção, em regime inicial aberto, substituída (...) por pena restritiva de direitos, consistente em prestação de serviços à comunidade ou entidade pública, pelo mesmo prazo de um ano, em jornadas semanais não inferiores a oito horas, a ser individualizada em posterior fase de execução". O juiz ainda determina: "(...) considerando que o querelante valeu-se da condição de professor de universidade pública deste Estado para praticar o crime, como expressamente faz constar no texto publicado, inequivocamente violou dever para com a Administração Pública, motivo pelo qual aplico como efeito secundário da sentença a perda do cargo ou função pública e determino a comunicação ao respectivo órgão público em que estiver lotado e condenado, ao trânsito em julgado".

Numa total inversão de valores, o que se quer com uma condenação como essa é impedir o direito de livre-expressão, numa ação que visa intimidar e criminalizar o pensamento crítico. É também uma ameaça à autonomia universitária que assegura que essa instituição é um espaço público de livre pensamento. Ao impor a pena de prisão e a perda do emprego conquistado por concurso público, é um recado a todos os que não se silenciam diante das injustiças.

Manifesto Original em: http://www.petitiononline.com/emir/petition.html

1 Comments:

  • Qual é o principal inimigo do juiz Müller Valente, seus aliados e mandantes?
    Em parte, é a liberdade de imprensa, mas não totalmente. De fato, liberdade de opinião na mídia de maior alcance, somente existe para uma minoria de ricos e/ou famosos. Todos eles não devem somar o 1 por mil da população.
    Ninguém transforma en inimigo algo que não existe, salvo que seja muito esquizofrênico que, com certeza, não é o caso.
    Então, o ataque a liberdade de opinião deve ter sido contemplado, mas não é o fundamental.
    Será que o inimigo é o PT como um bloco?
    Pode ser. Por que o juiz escolheu três dias antes do 2o. turno das eleições para dar sua sentença, quando teve o processo cativo mais de um ano?
    Entretanto, o PT é heterogêneo. Houve figuras do PT que, no famoso dia da "raça a ser extinta", tiveram a triste idéia de dar explicações ao disciplinado senador, e até de garantir que não moveriam processo.
    Talvez, o meritíssimo e corajoso magistrado teve compaixão do indefeso magnata, e de seus fiéis eleitores. Mas, parece muita sensibilidade para un jogo tão sujo como este.
    A solução parece mais simples. O PT, apesar de sua linha conservadora, está criando condições para que as pessoas se mobilizem e levantem a dignidade dos oprimidos, por boca de alguns jornalistas, estudantes, militantes de movimientos sociais, intelectuais em geral, dirigentes favelados, etc.
    Não é que a contestação faça parte da política do governo, ao contrário. Mas o governo, por su história anterior, por seus membros, e até por seu presidente, que luta entre os interesses do poder e a lembrança de quem já foi marginado e explorado, gera estas condições, como geraram na América Latina muitos governos que não eram de esquerda: Arbenz na Guatemala, Torrijos en Panamá, Cámpora na Argentina, Caamaño em Dominicana, e nosso Gourlart, é claro, etc.
    (Não incluo a Evo Morales nem Chaves porque eles sim são de esquerda).
    Esta sentença do juiz é uma advertência. Podem criticar tecnicalidades, podem falar contra ALCA, usando economês, mas não vão mais longe, não, cidadãos!!! Nada de lembrar racismo, mortes de camponeses, drenagem do patrimônio popular, nada de falar na linguagem que o povo entenda... Isso não será permitido: estão os espíritos protetores de Videla, Pinochet, Medici, Paranhos Fleury, Fujimory, para evitar essas obscenidades.
    Hoje é um ano de cadeia leve (em regime aberto) e perder empleo. Amanhã podem ser 30 anos. Ou até pode ser que os juízes comecem a pensar que essa história de código penal não é tão eficiente, e peçam ajuda a outras forças sociais.
    Também está a UERJ. É uma das poucas universidades divididas entre direita e esquerda. Em quase todas as outras, as elites dominam amplamente. Nos anos 2000 a 2004, quando eu estive lá, os membros de elite intelectual se arrepiava com professores progressistas, que abriam os olhos dos estudantes.
    Então, pode ir contra o PT, contra a liberdade de opinião, etc., mas isso é brinde. O alvo desta sentença são os militantes populares. É um pródromo para ações futuras, para renovar o agora aposentado terrorismo de estado.
    Não conheço a Müller, nem conheci a Roland, o juiz que condenou aos membros da Rosa Branca (ele morreu quando eu nascia, mais ou menos), mas a associação entre ambos surgiu na minha cabeça.
    Creio que os intelectuais devemos assinar petições, mas também devemos ficar em alerta. A direita se desespera con Chaves, com Morales, com Correa, com Borges e até com Lula. Tudo pode acontecer.
    Carlos A. Lungarzo
    Professor tit. da UNICAMP
    Ex UERJ / CNPq
    Membro de Anistia Internacional

    By Anonymous Carlos Alberto Lungarzo, at 10:43 PM  

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